quinta-feira, novembro 13, 2014

Liberdade (05/05/2013)


A liberdade se arrasta,
burocrática e indiferente,
nas mãos lentas
e pirracentas
dos funcionários...

quarta-feira, agosto 13, 2014

A Morte (24/02/2013)


Ela comia os velhos
com muito gosto.
Adorava as pelancas,
os ossos frágeis,
as vistas cansadas,
e as rugas do rosto.

De vez em quando,
na surpresa do impulso,
levava uma criança
ou rapaz ainda moço.

A morte é absoluta e irrestrita –
finitude do todo –
tem passe livre
nas fronteiras da vida.


segunda-feira, maio 19, 2014

Universidade (16/05/2014)

Na faculdade das estradas
pouco se ensina
e se aprende de tudo.
Em nada faz falta
salas quadradas
e cadeiras acolchoadas.
Os melhores professores,
às vezes são mudos.
Os caminhos, escolhidos às cegas,
e as paisagens são admiradas
com olhos atentos de um surdo.
Esta escola - não se engane -
é a morada infinita do absurdo
onde existem poucas portas,
das quais a chave-mestra
pode ser um simples sussurro.
A arte de ensinar a desaprender
e reaprender-refazer
é cortejar o presente-futuro.
Quem entra nessa casa,
não se contenta com uma só sala,
se deixa cair e rolar,
como um fruto maduro.
Não aceita que lhe mandem sentar,
calar ou cultuar os muros.
Formar-se é ser e deixar de ser
e supraviver um poema profundo.
Vou passando, sem me estabelecer.
Sinto na pele o ar quase puro.
As árvores veteranas me saúdam:
bem-vindo à Universidade do Mundo!

terça-feira, abril 15, 2014

Boa Memória (31.01.2014)

Seu nome
é uma marca em minha vida.
Sua vida
é no peito uma ferida antiga.
Seu peito
é uma boa memória
(inesquecida).

domingo, março 09, 2014

Nascer (28.12.2013)

Às vezes, essas tardes
custam a passar
pensando num mundo
em que nascer - 
independente da sorte - 
é sentença de morte...

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Envelhecer (02/05/2013)


A pele manchada e gasta,
os dentes amarelados,
e as dores frequentes
anunciam o acontecimento.

As rugas fundas no rosto,
o reflexo já retardado,
o cansaço a qualquer instante,
as ideias em outro momento.

Saber que a vida não volta
e que viver é muito comprido,
entender bem mais que antes.
Odiar e respeitar o tempo...

segunda-feira, janeiro 27, 2014

Fardo (04/03/2013)

Homens pardos
subindo a ladeira
mal iluminada
trazem mochilas
cheias de cansaço
e marmitas vazias.
Subir arrastado.
Suportar a vida
e a viagem de volta.
Pesado fardo.

*Poema publicado na coletânea "Histórias de Trabalho 2013".