terça-feira, dezembro 27, 2011

Frustrado (22/07/2011)

Meu corpo dormente 
jogado na cama. 
E tu te esquivas 
pela tangente. 
Eu te olho cansado 
e ainda com desejo. 
Tu te limpas  
como quem tens pressa. 
Miro teu corpo 
dos pés à cabeça. 
Tu ajeitas as madeixas 
e te viras assim. 
Eu continuo encantado 
com os farois de teus seios. 
Tu me olhas com carinho 
e mandas beijos pra mim. 
Eu te pego com paixão  
e encosto meu corpo. 
Tu, já de calcinha, 
te esfregas um pouco e sorri. 
Eu, de novo teso, 
ainda mais louco. 
Tu me beijas bem  
da boca ao pescoço. 
Te jogo na cama 
e digo: “me amas?”. 
Tu fazes que sim 
e me acolhes em teus braços. 
Eu, ainda nu, 
já não caibo em mim. 


Aí tu, de novo ligeira, 
sentas na sala 
pra ver não-sei-o-que. 

E eu, fico de cara, 
duro na cama, 
perguntando o porquê... 

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Enganar-se (01-11-2011)

O sorriso da face
só dissimula,
porém já tarde,
o respeito que inexiste.

A capa grossa,
e espessa
você veste e rejeita
o carinho só pra mim.

E outras bocas
que beija
em lento conta-gotas
ou enxurradas sem fim.

Seus gemidos
noutros ouvidos.
Esses seios
firmes e macios.

Você pilantra,
vacinada,
já rodada,
mais viva e sagaz.

Finge e fala,
dá e some,
mente e brinca
com outros tais.


Esse momento,
abortado em meu peito,
me doi os brios
e os cotovelos.

E os malditos fios,
miseráveis fios de cabelo
ainda esparramados
em meus lençois desfeitos.

Se confundem
com os pelos
moradores de meu peito,
num quase nó de marinheiro.

Tal qual erva daninha,
sugando a rubra flor
que já nem mais
pode pulsar direito.

E sendo assim,
eu não aceito.
Regarei de outros prazeres
meu espírito-jardim
[vadio e sem jeito...]  

sábado, novembro 26, 2011

Contido (25-08-2011)

Do recato, 
juvenil, 
das despedidas 
nos carros. 

Do riso branco 
que vicia 
e me guia 
pro seus lábios. 

Do prazer  
da companhia 
e da cova 
quando ria. 

Do portão, 
de ferro, 
que barra 
meu desejo. 

Do meu corpo 
que pede  
e cobiça 
o seu inteiro. 

Do sabor 
da reconquista 
que incomoda  
e me fustiga. 

Do tesão, 
contido, 
em meu corpo, 
perdido. 

E a espera 
do convite 
pra subir 
que não existe. 

E nesse dia,  
estranho, 
um fulgor 
sem tamanho. 

Só reforça  
o desejo 
em possuir 
essa mulher...

domingo, setembro 25, 2011

Mulher de manhã (27-05-2011)

Quando se apagam 
as luzes do dia, 
abrem-se as cortinas 
e ligam-se os refletores. 

E então, 
só ela existe, 
levitando docemente 
nas pontas dos pés. 

Ali, 
tudo é só dela. 
Cada olhar 
deseja a bailarina. 

Essa entidade hipnótica 
pisa em cada coração 
nas voltas frenéticas 
de seu movimento rotatório. 

Vertiginosamente, 
a dançarina alucina 
os espíritos 
com sua elegância singela. 

Quando a noite dorme, 
porém, 
tudo é silêncio e paz 
em sua beleza. 


O cabelo displicente, 
preso no alto da nuca 
e o rosto limpo 
reforçam o encanto. 

Sinto seu calor 
embaixo dos lençois. 
Me enrosco  
em seu corpo. 

E neste amolecer 
do quase-acordar 
tenho o paraíso. 
Sem amarras. 

Pois, só nós sabemos 
o quanto vale  
o gosto sincero 
de uma mulher de manhã...

sexta-feira, setembro 02, 2011

Desaforo (08/07/2011)


Desapareça
na grande rede
de intrigas
do mundo.

Não olhe pra trás,
não se dê ao trabalho.
Não marque horário,
não desperdice as agendas.

E o tempo
apressado.
Em poucos caracteres,
apertados.

Está certa!
Não queira ouvir a voz!
Não pense mais em nós,
não pense em mim!

Não queira ser bengala
de coisa passada.
Seus ouvidos não são penicos
pra lamúrias de ex-amor.

Siga deste modo.
Não conte nada.
Não queira saber,
nem mostre a cara.

Pra ver faces limpas,
sem amor e sem gosto,
melhor o esgoto
da fossa que há aqui.

Não mais espero,
não quero respostas.
Continue dando as costas,
está bem assim!

Quando eu puder,
quebrar as correntes,
esteja satisfeita,
não mais saberá de mim.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Fazendo Amor (19/06/2011)

Um louvor a momentos inesquecíveis, guardados com todo o carinho...


Em minha memória 
teu corpo branco 
és sinônimo metonímico  
de corpo de mulher. 

Tua carne dura, 
teus lábios rosados, 
o cabelo natural 
e o cheiro que eu gosto. 

O encaixe dos beiços 
e dos corpos, 
que, para mim,  
é o mais perfeito. 

Teus mamilos oprimidos 
contra meu peito 
juntam os corações 
num quase-beijo. 

Tua respiração forte, 
a minha ofegante. 
Ao pé do ouvido, 
sussurros constantes. 

Minha mão 
procura teu sexo liso. 
E então não há 
mais nada além de nós. 


Minha língua que brinca, 
ao redor de teu ouvido, 
deixando teu corpo 
num arrepio molhado. 

E os nossos olhos 
se encontram. 
Entre verdes e castanhos, 
apenas o “sim”. 

Intermináveis beijos 
por todo teu corpo, 
com mordidas sutis, 
vão me deixando louco. 

Minha barba te arranha  
e tu, na manha, 
te afastas, 
sem cortar o clima. 

E me vens por cima, 
montas em mim. 
Faz o que queres, 
fazes assim. 

E de repente, 
somos quase-um. 
Num ritmo gostoso 
já estou em ti. 

E tu, 
já te entregastes, 
neste amálga louco,  
no cume do amor. 


E o gozo. 
Compassado,  
simultâneo, 
nos faz renascer. 

Tu pousas em meu ombro, 
então, amoleço. 
E, semi-acordados, 
é o fim do começo. 

domingo, agosto 14, 2011

Avelino (05/05/2011)


A palavra  
que não existiu 
me disse  
que sim! 

Amor,  
admiração  
e honestidade 
são apenas palavras. 

Amontoados de letras, 
organizadas, 
numa convenção convicta, 
só querem dizer. 
Não são. 

Tais sentimentos 
rejeitam a escrita, 
fogem da traqueia. 
Moram na retina, 
dilatam as pupilas. 

Um olhar. 
Este não entra 
no jogo ambíguo 
e sinuoso 
da palavra. 

Mil delas não são. 
O olhar é sincero. 
E o olho é a janela, 
pela qual se vê o amor de pai.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Non (08/05/2011)


Oito de maio 
é um dia triste 
dos países baixos 
a Paris. 

É a noite 
feia e agonizante 
dos filhos apartados 
pelo exílio voluntário. 

As estrelas  
do céu de Amsterdam 
são belas 
como as noites da Bahia. 

Mas ela, 
que é a estrela guia, 
desfalca a constelação. 
Perco o brilho. 

E começa a batalha 
contra o não-ter 
através dos finos fios 
de fibra ótica... 

O temor da perda, 
a expectativa de rever 
e o frio do norte 
me fazem fraco. 

Meus sentidos suplicam 
pelas sensações do lar, 
numa alucinação  
sinestésica e atóxica.  

Volto pra uma casa 
órfã e distante, 
sem o amor quente 
do colo de mãe. 

E nessa noite, 
a incerteza sonhadora  
dos projetos infindos 
dá lugar às mais doces lembranças... 

terça-feira, agosto 02, 2011

Parto de Orly (01/02/2011)

Qual o preço de um sonho? 

Quantas vezes é preciso perder o chão para realizá-lo? 

Antes mesmo de o avião decolar já sinto as pernas formigarem, a pressão nos 
ouvidos e o aperto no peito. 

Ouço um celular que recebe uma mensagem e penso que pode ser o meu. 
Reviro os bolsos e a memória e lembro que não o trago comigo. 

Procuro um rosto conhecido para partilhar a graça do ato falho. Terá sido meu 
espírito, sofrendo de saudades precoces? 

Vejo rostos europeus: branco-rosados, finos, desconhecidos. Mais uma vez 
tremo. 

Penso naqueles que ficaram. Imagem fresca na retina e no coração. Cada 
marca de expressão em suas faces, nas quais pude ler a imensidão do amor e 
do orgulho, do afeto e da perda (ainda que esta última tenda à efemeridade). 

Mais uma vez o celular chama. Desta vez meus olhos protestam molhados. 
Será delírio? Penso que devo ser forte. 

Cada olho marejado, cada sorriso aberto, toda palavra de apoio dita ao celular 
ou ao pé do ouvido antes desta torturante espera na sala de embarque, tudo 
isso, faz de mim antes de qualquer coisa um forte, como todo aquele que tem 
sangue sertanejo correndo nas veias.  

É sabido que não se pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. Porém, quero 
voltar a este lugar exatamente como me encontro: preservado em valores, 
crenças, afetos e gentilezas. Esta é a bagagem da qual não abro mão. 


Não. 



Não quero entregar-me a um imobilismo conservador. Quero apenas manter 
comigo tudo que aprendi com aquelas pessoas e continuar sentindo esta força 
que vem “debaixo do barro do chão” de minha terra.

segunda-feira, julho 11, 2011

Rapariga do Porto (07/07/2011)


Morena do Porto
que passas sisuda
nem sequer
me olha torto.

O azul do teu olho,
de tão azul,
de tão fascinante,
humilha o mar e o Douro.

Rapariga carrasca
de um coração latino
e uivando
de dor.

Tuas faces brancas
que o sol de Portugal roseia,
não vacilam.
Não mudas teu semblante.

E assim maltratas
este viageiro errante,
que levará na bagagem
estes breves instantes…

sexta-feira, julho 08, 2011

93 (28/06/2011)

Homenagem singela às novas amizades construídas nessa jornada estranha...



Na falsa ilusão
das noites
cada sorriso
tem cheiro de amizade.

Nas madrugadas ébrias
todo abraço
tem gosto
de irmão.

Qualquer euforia
parece clímax.
Cada olhar
parece solidário.

Toda essa trapaça
de sentidos e emoções
nos faz alí
quase-felizes.

Porém, quando dorme
a treva da noite,
saímos, de mãos dadas,
desta caverna.

Com o nascer do dia
as caras cansadas
e em carne viva
se mostram limpas.

Não cabem máscaras
ao acordar do sol.
Cabem sorrisos
e lágrimas.

Juras de fraternidade instantâneas
nada tem a ver
com o recém-nascer
sincero da manhã.

Com o canto
dos pássaros
e os primeiros
raios dourados.

Vêm à tona
as estacas dos peitos
o âmago
dos espíritos.

E depois,
de novo o riso,
a saideira
e uma última canção.

A sinceridade
dos corações abertos
segura nossos braços
e celebra a amizade.

Comemoramos, então,
as bodas de sono,
que nos dará a certeza atemporal
de que tudo aquilo foi de verdade.

terça-feira, julho 05, 2011

Sendo como posso (12/04/2011)

Há muito espaço
e folhas em branco.
Há muito pouco tempo
e muito tesão.

Há muita saudade
e já alguns amigos.
Há muitas latas
e também algumas lágrimas.

Há muita disposição
e pouco dinheiro.
Há muitas lembranças
e muito carinho.

Há pouca família
e muito de mim.
Há um mundo inteiro
e também a Bahia.

Há muitos trilhos
e muitos caminhos.
Há vários mundos
e muitas escolhas.

Há muitas canções
e um peito apertado.
Há um novo ciclo
e o próximo fim.

Há o que tem que haver
e estou feliz.
Há muito que parti
e quero voltar...

sábado, junho 25, 2011

Xeque-mate (08-11-2009)

Algumas das linhas rabiscadas na esteira da arte real de um bom amigo...

                                                                                                         Hugo Canuto


Foi assim que o dia
cindia.
Encontrei-me
com a noite
em estranha asfixia.
Sem métrica, sem rima,
quase sem poesia.
Angustiado e limitado.

Se limitado,
sem torre, rainha ou cavalo.
Sem dama, sem saída.

Se saída
fosse gota,
bebia todo o tabuleiro.
Pudesse eu cavalgaria,
mesmo sem cavalo
e falo:
Mas a teia,
citei-a,
não permite, não deixa.

Se altura fosse sorte,
talvez,
quem sabe até me jogaria.
Mas,
angustiado e limitado:
sem sorte, sem torre,
sem reza e sem morte.

Se fluido,
não rijo.
Puxo o ar e não consigo
sair deste xadrez.
E se xadrez
fosse vida, querida,
só dama me salvaria
deste xeque-mate.

Se não,
Me mate...

domingo, junho 19, 2011

Fera Domada (10/04/2011)

A fumaça de um charuto barato e o álcool de um bom uísque fazem com que minha aflição se condensse em lágrimas quentes. O fumo, o malte e choro me aliviam as chagas do punhal impiedoso da Saudade.

Este monstro maldito traz o tempo em rédea curta. Faz das emoções fantoches. Crava cada vez mais fundo sua lâmina cega nos corações que teimam em pulsar.

A fera cruel é parasita do amor, controi sua morada infernal do mais resistente concreto, sobre as flores delicadas do nobre sentimento.

Quando chega a Saudade, tudo se torna cinza, todo jardim não mais tem flor. Sofrem os poetas, choramos todos.

Refuto o martírio. Rejeito as cordas e o punhal. Me prendo ao verde-fio e aos bons sonhos.

Dentre as névoas do inverno e da fumaça vagabunda, olho para o alto. Também choram anjos e erês. Num canto está Deus, que sorri docemente ouvindo os lamentos daqueles dois poetas de cabelos brancos que têm saudade da Bahia. O paraíso não é suficiente se não há Itapoã.

Mais um gole, outro trago. Sobre minha cabeça, Ogum guarda meu sono tranquilo. E eu sonho...

Domo a besta temida. Cravo as unhas em seu pelo, seguro sua crina com firmeza e, mais uma vez, cavalgo levemente pelas ruas maltratadas e aconchegantes de minha querida cidade...

terça-feira, junho 14, 2011

Bahia na Roda (30-08-2009)

Bahia minha  
preta velha.  
Bahia na roda,  
de samba,  
de capoeira. 
Roda viva.  
Vira casaca.  
Foge e se esconde. 
Se trasveste 
e transforma.   
Roda de fogo,  
a qual nos cerca 
Não podemos, 
não há como sair, 
sem que a queimemos  
ou que sejamos queimados.  
Bahia velha pomba 
gira em meu juízo, 
me deixa com medo e aflito 
de perder-te de vez, 
de não mais encontrar, 
o que ela faz e já fez. 
Terna terra-parodoxo, 
há quem diga: 
Puta, vítima, algoz,  
mãe, amor e amiga.