sábado, fevereiro 25, 2012

Nos Trilhos da Imaginação (15-07-2011)

Pele morena
e jovem.
Cabelos negros,
e lisos.

Três pulseiras,
um relógio.
Unhas grandes,
sem tinta.

Faces novas
e limpas,
de menina-mulher
que não se pinta.

O bendito calor
que invade o trem
a faz retirar
o casaco.

A camiseta
branca e fina
com a alça esquerda
meio caída.

E a beleza
de seus olhos
me faz admirar
pela janela-espelho.

E ela fica só,
em seu canto,
brincando
com seus cabelos.

E eu,
cá espiando,
também sozinho,
fantasiando desejos...

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

O menino (10-02-2011)

Ele, que há muito partiu, veio, sem aviso, talvez para me dizer...

Seus olhos claros, sua roupa velha surrada, seus joelhos feridos, o barro espalhado por seu corpo, exalavam toda a insegurança infantil. Estendia sua mão a mim, suplicava sem dizer uma palavra. Implorava para que eu a alcançasse. E aqueles olhos eram como os meus.

Não era ele. Não podia ser. Ainda novo, ainda fraco. E fazia tanto tempo...

Num delírio suado, penso que o pequeno sou eu. Ou que eu era ele. Existe o tal menino? E eu, existo? Existe a vida? Passado e presente: o que os separa? É possível que se cruzem?

Dizem, de onde vim, que quando morre um menino, será jovem para sempre. E nós, que nascemos juntos? Ele que já foi, está fadado à juventude? Eu, que cá estou, morrerei aos poucos?

Estou no velho cemitério Père-Lachaise. E cavo a terra como louco. Não consigo ver as iniciais na lápide consumida pelo tempo. Há um caixão que não consigo abrir. Não posso encará-lo. Enraiveço.

Sinto que estou morrendo. Sou digerido aos poucos. Não tive a indulgência do tempo. Mas meus músculos ainda são rígidos e minha pele lisa. Será loucura?

Eis, que depois de muito tempo, algo pulsa de dentro de mim, embrulhando- me o estômago. É uma força avassaladora. Esta salta através de meus olhos através de salgadas lágrimas. Choro com toda a insegurança que cabia em mim e eu não sabia. Choro como uma criança. Os joelhos latejam sob a terra que os reveste.

Encaro aquele caixão em meio à insânia e vertigem da catarse. Consigo enxergar. Ele está lá. Não pisco. Ele sou eu. Ele era eu. E eu o matei. E estou morrendo.

Arrombo o caixão com fúria.
Pego aquele menino inseguro nos braços. O levo pra casa.
Juro que não mais o deixarei se afastar de mim...