segunda-feira, agosto 22, 2011

Fazendo Amor (19/06/2011)

Um louvor a momentos inesquecíveis, guardados com todo o carinho...


Em minha memória 
teu corpo branco 
és sinônimo metonímico  
de corpo de mulher. 

Tua carne dura, 
teus lábios rosados, 
o cabelo natural 
e o cheiro que eu gosto. 

O encaixe dos beiços 
e dos corpos, 
que, para mim,  
é o mais perfeito. 

Teus mamilos oprimidos 
contra meu peito 
juntam os corações 
num quase-beijo. 

Tua respiração forte, 
a minha ofegante. 
Ao pé do ouvido, 
sussurros constantes. 

Minha mão 
procura teu sexo liso. 
E então não há 
mais nada além de nós. 


Minha língua que brinca, 
ao redor de teu ouvido, 
deixando teu corpo 
num arrepio molhado. 

E os nossos olhos 
se encontram. 
Entre verdes e castanhos, 
apenas o “sim”. 

Intermináveis beijos 
por todo teu corpo, 
com mordidas sutis, 
vão me deixando louco. 

Minha barba te arranha  
e tu, na manha, 
te afastas, 
sem cortar o clima. 

E me vens por cima, 
montas em mim. 
Faz o que queres, 
fazes assim. 

E de repente, 
somos quase-um. 
Num ritmo gostoso 
já estou em ti. 

E tu, 
já te entregastes, 
neste amálga louco,  
no cume do amor. 


E o gozo. 
Compassado,  
simultâneo, 
nos faz renascer. 

Tu pousas em meu ombro, 
então, amoleço. 
E, semi-acordados, 
é o fim do começo. 

domingo, agosto 14, 2011

Avelino (05/05/2011)


A palavra  
que não existiu 
me disse  
que sim! 

Amor,  
admiração  
e honestidade 
são apenas palavras. 

Amontoados de letras, 
organizadas, 
numa convenção convicta, 
só querem dizer. 
Não são. 

Tais sentimentos 
rejeitam a escrita, 
fogem da traqueia. 
Moram na retina, 
dilatam as pupilas. 

Um olhar. 
Este não entra 
no jogo ambíguo 
e sinuoso 
da palavra. 

Mil delas não são. 
O olhar é sincero. 
E o olho é a janela, 
pela qual se vê o amor de pai.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Non (08/05/2011)


Oito de maio 
é um dia triste 
dos países baixos 
a Paris. 

É a noite 
feia e agonizante 
dos filhos apartados 
pelo exílio voluntário. 

As estrelas  
do céu de Amsterdam 
são belas 
como as noites da Bahia. 

Mas ela, 
que é a estrela guia, 
desfalca a constelação. 
Perco o brilho. 

E começa a batalha 
contra o não-ter 
através dos finos fios 
de fibra ótica... 

O temor da perda, 
a expectativa de rever 
e o frio do norte 
me fazem fraco. 

Meus sentidos suplicam 
pelas sensações do lar, 
numa alucinação  
sinestésica e atóxica.  

Volto pra uma casa 
órfã e distante, 
sem o amor quente 
do colo de mãe. 

E nessa noite, 
a incerteza sonhadora  
dos projetos infindos 
dá lugar às mais doces lembranças... 

terça-feira, agosto 02, 2011

Parto de Orly (01/02/2011)

Qual o preço de um sonho? 

Quantas vezes é preciso perder o chão para realizá-lo? 

Antes mesmo de o avião decolar já sinto as pernas formigarem, a pressão nos 
ouvidos e o aperto no peito. 

Ouço um celular que recebe uma mensagem e penso que pode ser o meu. 
Reviro os bolsos e a memória e lembro que não o trago comigo. 

Procuro um rosto conhecido para partilhar a graça do ato falho. Terá sido meu 
espírito, sofrendo de saudades precoces? 

Vejo rostos europeus: branco-rosados, finos, desconhecidos. Mais uma vez 
tremo. 

Penso naqueles que ficaram. Imagem fresca na retina e no coração. Cada 
marca de expressão em suas faces, nas quais pude ler a imensidão do amor e 
do orgulho, do afeto e da perda (ainda que esta última tenda à efemeridade). 

Mais uma vez o celular chama. Desta vez meus olhos protestam molhados. 
Será delírio? Penso que devo ser forte. 

Cada olho marejado, cada sorriso aberto, toda palavra de apoio dita ao celular 
ou ao pé do ouvido antes desta torturante espera na sala de embarque, tudo 
isso, faz de mim antes de qualquer coisa um forte, como todo aquele que tem 
sangue sertanejo correndo nas veias.  

É sabido que não se pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. Porém, quero 
voltar a este lugar exatamente como me encontro: preservado em valores, 
crenças, afetos e gentilezas. Esta é a bagagem da qual não abro mão. 


Não. 



Não quero entregar-me a um imobilismo conservador. Quero apenas manter 
comigo tudo que aprendi com aquelas pessoas e continuar sentindo esta força 
que vem “debaixo do barro do chão” de minha terra.