Algumas das linhas rabiscadas na esteira da arte real de um bom amigo...
Hugo Canuto
Foi assim que o dia
cindia.
Encontrei-me
com a noite
em estranha asfixia.
Sem métrica, sem rima,
quase sem poesia.
Angustiado e limitado.
Se limitado,
sem torre, rainha ou cavalo.
Sem dama, sem saída.
Se saída
fosse gota,
bebia todo o tabuleiro.
Pudesse eu cavalgaria,
mesmo sem cavalo
e falo:
Mas a teia,
citei-a,
não permite, não deixa.
Se altura fosse sorte,
talvez,
quem sabe até me jogaria.
Mas,
angustiado e limitado:
sem sorte, sem torre,
sem reza e sem morte.
Se fluido,
não rijo.
Puxo o ar e não consigo
sair deste xadrez.
E se xadrez
fosse vida, querida,
só dama me salvaria
deste xeque-mate.
Se não,
Me mate...
sábado, junho 25, 2011
domingo, junho 19, 2011
Fera Domada (10/04/2011)
A fumaça de um charuto barato e o álcool de um bom uísque fazem com que minha aflição se condensse em lágrimas quentes. O fumo, o malte e choro me aliviam as chagas do punhal impiedoso da Saudade.
Este monstro maldito traz o tempo em rédea curta. Faz das emoções fantoches. Crava cada vez mais fundo sua lâmina cega nos corações que teimam em pulsar.
A fera cruel é parasita do amor, controi sua morada infernal do mais resistente concreto, sobre as flores delicadas do nobre sentimento.
Quando chega a Saudade, tudo se torna cinza, todo jardim não mais tem flor. Sofrem os poetas, choramos todos.
Refuto o martírio. Rejeito as cordas e o punhal. Me prendo ao verde-fio e aos bons sonhos.
Dentre as névoas do inverno e da fumaça vagabunda, olho para o alto. Também choram anjos e erês. Num canto está Deus, que sorri docemente ouvindo os lamentos daqueles dois poetas de cabelos brancos que têm saudade da Bahia. O paraíso não é suficiente se não há Itapoã.
Mais um gole, outro trago. Sobre minha cabeça, Ogum guarda meu sono tranquilo. E eu sonho...
Domo a besta temida. Cravo as unhas em seu pelo, seguro sua crina com firmeza e, mais uma vez, cavalgo levemente pelas ruas maltratadas e aconchegantes de minha querida cidade...
terça-feira, junho 14, 2011
Bahia na Roda (30-08-2009)
Bahia minha
preta velha.
Bahia na roda,
de samba,
de capoeira.
Roda viva.
Vira casaca.
Foge e se esconde.
Se trasveste
e transforma.
Roda de fogo,
a qual nos cerca
Não podemos,
não há como sair,
sem que a queimemos
ou que sejamos queimados.
Bahia velha pomba
gira em meu juízo,
me deixa com medo e aflito
de perder-te de vez,
de não mais encontrar,
o que ela faz e já fez.
Terna terra-parodoxo,
há quem diga:
Puta, vítima, algoz,
mãe, amor e amiga.
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