sábado, junho 25, 2011

Xeque-mate (08-11-2009)

Algumas das linhas rabiscadas na esteira da arte real de um bom amigo...

                                                                                                         Hugo Canuto


Foi assim que o dia
cindia.
Encontrei-me
com a noite
em estranha asfixia.
Sem métrica, sem rima,
quase sem poesia.
Angustiado e limitado.

Se limitado,
sem torre, rainha ou cavalo.
Sem dama, sem saída.

Se saída
fosse gota,
bebia todo o tabuleiro.
Pudesse eu cavalgaria,
mesmo sem cavalo
e falo:
Mas a teia,
citei-a,
não permite, não deixa.

Se altura fosse sorte,
talvez,
quem sabe até me jogaria.
Mas,
angustiado e limitado:
sem sorte, sem torre,
sem reza e sem morte.

Se fluido,
não rijo.
Puxo o ar e não consigo
sair deste xadrez.
E se xadrez
fosse vida, querida,
só dama me salvaria
deste xeque-mate.

Se não,
Me mate...

domingo, junho 19, 2011

Fera Domada (10/04/2011)

A fumaça de um charuto barato e o álcool de um bom uísque fazem com que minha aflição se condensse em lágrimas quentes. O fumo, o malte e choro me aliviam as chagas do punhal impiedoso da Saudade.

Este monstro maldito traz o tempo em rédea curta. Faz das emoções fantoches. Crava cada vez mais fundo sua lâmina cega nos corações que teimam em pulsar.

A fera cruel é parasita do amor, controi sua morada infernal do mais resistente concreto, sobre as flores delicadas do nobre sentimento.

Quando chega a Saudade, tudo se torna cinza, todo jardim não mais tem flor. Sofrem os poetas, choramos todos.

Refuto o martírio. Rejeito as cordas e o punhal. Me prendo ao verde-fio e aos bons sonhos.

Dentre as névoas do inverno e da fumaça vagabunda, olho para o alto. Também choram anjos e erês. Num canto está Deus, que sorri docemente ouvindo os lamentos daqueles dois poetas de cabelos brancos que têm saudade da Bahia. O paraíso não é suficiente se não há Itapoã.

Mais um gole, outro trago. Sobre minha cabeça, Ogum guarda meu sono tranquilo. E eu sonho...

Domo a besta temida. Cravo as unhas em seu pelo, seguro sua crina com firmeza e, mais uma vez, cavalgo levemente pelas ruas maltratadas e aconchegantes de minha querida cidade...

terça-feira, junho 14, 2011

Bahia na Roda (30-08-2009)

Bahia minha  
preta velha.  
Bahia na roda,  
de samba,  
de capoeira. 
Roda viva.  
Vira casaca.  
Foge e se esconde. 
Se trasveste 
e transforma.   
Roda de fogo,  
a qual nos cerca 
Não podemos, 
não há como sair, 
sem que a queimemos  
ou que sejamos queimados.  
Bahia velha pomba 
gira em meu juízo, 
me deixa com medo e aflito 
de perder-te de vez, 
de não mais encontrar, 
o que ela faz e já fez. 
Terna terra-parodoxo, 
há quem diga: 
Puta, vítima, algoz,  
mãe, amor e amiga.