terça-feira, novembro 20, 2012
Três Atabaques (02/07/2012)
Três atabaques solitários
uma caixa preta,
dezessete fios.
O rádio.
Três atabaques sonhadores
uma saudade estreita,
um calo nos brios.
O ódio.
Três atabaques sofredores
nenhuma mão preta
no couro, nenhum pio.
O tédio.
Três atabaques inconformes
a sensação rejeita,
um orgulho baldio.
Sacrilégio.
Três atabaques acabados,
gente que não respeita,
que nunca ouviu.
O anúncio.
Três atabaques multicores,
um menino na espreita,
curioso e arredio.
Tibério.
Três atabaques africanos,
a qualidade insuspeita,
a alma preta do Brasil.
Berçário.
Três atabaques despertados,
o toque de oração refeita
nas mãos de menino surgiu.
Mistério...
segunda-feira, setembro 10, 2012
À Segunda Vista (16-06-2012)
O que dizer, então,
dos incontáveis amores
dos incontáveis amores
assim, à primeira vista?
Sentimentos instantâneos,
versos fingidos,
sorrisos vigaristas.
Noutro peito,
até, quem sabe,
desabroche flor bonita.
E um sorriso se abra
e depois a calça.
E o sutiã e outra carícia.
E a manhã tingida
trará nova fuga
e novo amor que exiba.
Novos delírios,
outras delícias.
E o dom do letrista.
Semi-sinceros,
seguem seu curso.
Supramalícia.
À segunda vista:
amores-trapaça.
Fraudes bem-sucedidas.
segunda-feira, agosto 06, 2012
Incerto (18-05-2012)
Pensando no amor
recém-passado
roçando coração
ébrio ainda
só vejo a incerteza
da eternidade
nos encontros futuros
que a vida hipotetiza...
recém-passado
roçando coração
ébrio ainda
só vejo a incerteza
da eternidade
nos encontros futuros
que a vida hipotetiza...
segunda-feira, julho 02, 2012
Imprudência (01-02-2012)
[jamais entregue
a quem de direito,
pelo carinho e respeito,
que travam e impedem,
imprudências sem jeito]
Esse tão sorriso
e os abraços carinhosos
me fazem indeciso.
Não vejo
no negro de seus olhos
a inteireza do desejo.
Não sei se faço.
Seus requebros,
meu medo.
De estar errado.
Meus devaneios,
seu trato.
Então não invado
seus lábios.
Olho seu tempo.
Comprimido.
Aguardo indícios
no fato.
De meu peito,
em 36 bocados
estar despedaçado.
Porém ousado,
mostro anseios,
talvez precipitado.
Pois não suporto
inalar seus cheiros
infeliz e calado...
quarta-feira, maio 09, 2012
Casamundo (09-04-2012)
Estou perdido
em toda esquina,
em cada canto.
É a graça do mundo
onde o mistério ensina
ao sabor do vento.
É nordeste em cada nada
em qualquer lado
bato asas,
num som surdo.
Meu peito em brasa
nada sabe e come tudo.
A sala de casa
é o globo do mundo...
em toda esquina,
em cada canto.
É a graça do mundo
onde o mistério ensina
ao sabor do vento.
É nordeste em cada nada
em qualquer lado
bato asas,
num som surdo.
Meu peito em brasa
nada sabe e come tudo.
A sala de casa
é o globo do mundo...
terça-feira, maio 01, 2012
Cinzas (24/02/2012)
Minhas noites tranquilas
estão de volta.
Benditas festas,
maldita festa de Momo.
Que alucina,
embriaga
e me assalta
a paz e o sono.
Come minhas horas,
bebe meus dias
e me deixa à rua
vadio e sem rumo.
Meu peito podre
ainda protesta:
malditas festas,
bendita festa de Momo...
estão de volta.
Benditas festas,
maldita festa de Momo.
Que alucina,
embriaga
e me assalta
a paz e o sono.
Come minhas horas,
bebe meus dias
e me deixa à rua
vadio e sem rumo.
Meu peito podre
ainda protesta:
malditas festas,
bendita festa de Momo...
domingo, abril 01, 2012
Carnaval (22.02.2012)
Eu canto e danço
eu canto e canto
e meu peito
louco e calmo
tão fechado
pra balanço.
Eu chamo e mando
pra outro canto
o sofrimento
e tanto sonho
no luar vadio
de pouco sono.
Pois não há pranto
que diga quanto
meu peito branco
num só espanto
se viu sambando:
feliz e ponto.
sexta-feira, março 16, 2012
Abismo (08-05-2011)
O mundo é grande
e velho.
E eu só
e triste.
Nada,
além do eco,
me entra pela retina
à velocidade do som.
O anjo cinzento da distância,
sentado em meu ombro,
pita tranquilamente
seu cachimbo gasto.
Sua fumaça é fria
e invade meu peito.
Congela-me o espírito
e as lágrimas.
Minha visão se turva
não posso mais ver
quem éramos nós.
Tudo é nebuloso.
Todo riso não tem mais
a mesma graça.
Toda concordância,
muito vaga.
Cada poesia
é incompreendida
ou ignorada.
E o demônio da distância
Cresce ao pé do ouvido.
E eu, eu já não sei mais nada...
sábado, fevereiro 25, 2012
Nos Trilhos da Imaginação (15-07-2011)
Pele morena
e jovem.
Cabelos negros,
e lisos.
Três pulseiras,
um relógio.
Unhas grandes,
sem tinta.
Faces novas
e limpas,
de menina-mulher
que não se pinta.
O bendito calor
que invade o trem
a faz retirar
o casaco.
A camiseta
branca e fina
com a alça esquerda
meio caída.
E a beleza
de seus olhos
me faz admirar
pela janela-espelho.
E ela fica só,
em seu canto,
brincando
com seus cabelos.
E eu,
cá espiando,
também sozinho,
fantasiando desejos...
sexta-feira, fevereiro 03, 2012
O menino (10-02-2011)
Ele, que há muito partiu, veio, sem aviso, talvez para me dizer...
Seus olhos claros, sua roupa velha surrada, seus joelhos feridos, o barro espalhado por seu corpo, exalavam toda a insegurança infantil. Estendia sua mão a mim, suplicava sem dizer uma palavra. Implorava para que eu a alcançasse. E aqueles olhos eram como os meus.
Não era ele. Não podia ser. Ainda novo, ainda fraco. E fazia tanto tempo...
Num delírio suado, penso que o pequeno sou eu. Ou que eu era ele. Existe o tal menino? E eu, existo? Existe a vida? Passado e presente: o que os separa? É possível que se cruzem?
Dizem, de onde vim, que quando morre um menino, será jovem para sempre. E nós, que nascemos juntos? Ele que já foi, está fadado à juventude? Eu, que cá estou, morrerei aos poucos?
Estou no velho cemitério Père-Lachaise. E cavo a terra como louco. Não consigo ver as iniciais na lápide consumida pelo tempo. Há um caixão que não consigo abrir. Não posso encará-lo. Enraiveço.
Sinto que estou morrendo. Sou digerido aos poucos. Não tive a indulgência do tempo. Mas meus músculos ainda são rígidos e minha pele lisa. Será loucura?
Eis, que depois de muito tempo, algo pulsa de dentro de mim, embrulhando- me o estômago. É uma força avassaladora. Esta salta através de meus olhos através de salgadas lágrimas. Choro com toda a insegurança que cabia em mim e eu não sabia. Choro como uma criança. Os joelhos latejam sob a terra que os reveste.
Encaro aquele caixão em meio à insânia e vertigem da catarse. Consigo enxergar. Ele está lá. Não pisco. Ele sou eu. Ele era eu. E eu o matei. E estou morrendo.
Arrombo o caixão com fúria.
Pego aquele menino inseguro nos braços. O levo pra casa.
Juro que não mais o deixarei se afastar de mim...
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