sexta-feira, março 11, 2016

Pátria Amada (24.03.2014)

Quando meu andar perdido
e solitário de andarilho
avista as velas dos barcos,
o sabor do sal é conhecido
e o vento torna-se íntimo.
É a velha doçura
de sentir-se em casa,
contrariando o autoexílio.
O mar é sempre
esta mesma brasa
do ventre que me pariu
e sou sempre marinheiro
desse meu destino.
O mesmo vento balança
essas muitas palmeiras
e as mesmas moças
caminham nas calçadas.
Um sentimento patriota
me ocupa o pensamento:
o mundo – e cada canto
onde me reinvento –
é a minha pátria amada...

terça-feira, março 03, 2015

Pela tangente (19.12.2014)


Se fazer ciência
é cultuar as formas
e alimentar demências,
prefiro ser poeta
para gozar absurdos
e tangenciar essências.

quinta-feira, novembro 13, 2014

Liberdade (05/05/2013)


A liberdade se arrasta,
burocrática e indiferente,
nas mãos lentas
e pirracentas
dos funcionários...

quarta-feira, agosto 13, 2014

A Morte (24/02/2013)


Ela comia os velhos
com muito gosto.
Adorava as pelancas,
os ossos frágeis,
as vistas cansadas,
e as rugas do rosto.

De vez em quando,
na surpresa do impulso,
levava uma criança
ou rapaz ainda moço.

A morte é absoluta e irrestrita –
finitude do todo –
tem passe livre
nas fronteiras da vida.


segunda-feira, maio 19, 2014

Universidade (16/05/2014)

Na faculdade das estradas
pouco se ensina
e se aprende de tudo.
Em nada faz falta
salas quadradas
e cadeiras acolchoadas.
Os melhores professores,
às vezes são mudos.
Os caminhos, escolhidos às cegas,
e as paisagens são admiradas
com olhos atentos de um surdo.
Esta escola - não se engane -
é a morada infinita do absurdo
onde existem poucas portas,
das quais a chave-mestra
pode ser um simples sussurro.
A arte de ensinar a desaprender
e reaprender-refazer
é cortejar o presente-futuro.
Quem entra nessa casa,
não se contenta com uma só sala,
se deixa cair e rolar,
como um fruto maduro.
Não aceita que lhe mandem sentar,
calar ou cultuar os muros.
Formar-se é ser e deixar de ser
e supraviver um poema profundo.
Vou passando, sem me estabelecer.
Sinto na pele o ar quase puro.
As árvores veteranas me saúdam:
bem-vindo à Universidade do Mundo!

terça-feira, abril 15, 2014

Boa Memória (31.01.2014)

Seu nome
é uma marca em minha vida.
Sua vida
é no peito uma ferida antiga.
Seu peito
é uma boa memória
(inesquecida).

domingo, março 09, 2014

Nascer (28.12.2013)

Às vezes, essas tardes
custam a passar
pensando num mundo
em que nascer - 
independente da sorte - 
é sentença de morte...

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Envelhecer (02/05/2013)


A pele manchada e gasta,
os dentes amarelados,
e as dores frequentes
anunciam o acontecimento.

As rugas fundas no rosto,
o reflexo já retardado,
o cansaço a qualquer instante,
as ideias em outro momento.

Saber que a vida não volta
e que viver é muito comprido,
entender bem mais que antes.
Odiar e respeitar o tempo...

segunda-feira, janeiro 27, 2014

Fardo (04/03/2013)

Homens pardos
subindo a ladeira
mal iluminada
trazem mochilas
cheias de cansaço
e marmitas vazias.
Subir arrastado.
Suportar a vida
e a viagem de volta.
Pesado fardo.

*Poema publicado na coletânea "Histórias de Trabalho 2013".

domingo, outubro 20, 2013

Um Sonho (28/04/2013)

Queria morder sua alma
e chupar seu coração 
com muita calma.

Lamber seus desejos,
fertilizar com precisão
sentimentos e beijos.

Sorver seus lábios com muita vontade
conduzir o prazer pela mão
e fazer desse sonho verdade... 

segunda-feira, agosto 12, 2013

Pituba (07-05-2012)


É sempre na Pituba
que as minas gerais
tocam os espíritos santos.

Nos lares das meninas
de muitas cores
e vários cheiros.

Distintos toques,
mistérios-sabores.
Jardim de torres.

N’onde moças-flores
se escondem
em labirintos surdos.

Tanto mar
mais preto, meio claro
ou mameluco.

Nada mordo,
fico mudo.
Ainda posso.

Morrer de amores
em arranha-dores
deste céu sisudo...

*Poema selecionado no prêmio Damário Dacruz de Poesia e publicado no livro "Outros Riscos".

quarta-feira, junho 26, 2013

Centro da Saudade (05/07/2012)

Digerindo as novidades,
a gastrite atestada.
Acordados, só eu e a cidade.
Nenhum dos dois diz nada.

O silêncio escandaloso
me invade, já tarde.
E o sentimento, escorreito,
ainda vive, ainda arde.

Tão adequada noite de sono
ou dose de uísque puro malte
pra exorcizar demônios,
bem discreto, sem alarde.

E nada acontece.
A solidão (que se instale!)
e a mudez dessa rua
só me impõem nova saudade...

quarta-feira, maio 15, 2013

Tempo (30/09/2012)


Não quero ter o tempo que preciso.
Desprezo responsabilidades,
odeio as antecedências.
Amaldiçoo os minutos,
que se arrastam.
As consequências
- que se impunham!
Não me importa seu peso.
Antes a tranquilidade,
um gole a mais de cerveja,
quatro ou cinco versos,
Gilberto Gil na caixa
e um pensamento impreciso.
Faço pouco do tempo.
Pra ser feliz nessa vida
não me basta estar vivo...

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Presente (06/02/2013)


Tudo o que eu quero.
O despreocupar tranquilo
de outros Carnavais.
As ruas tomadas
de seres de luz
dançando toques pretos.
As multidões regidas
ao som de guitarra baiana.
E mais.
Que a doçura embriague
os peitos sinceros.
Que o destino nos trague
e nos traga Moreiras e Caldas.
Eu quero a rua quente
em paz caótica.
Quero amar a cidade
e me espalhar nas calçadas.
Afora isso,
não quero mais nada!

terça-feira, novembro 20, 2012

Três Atabaques (02/07/2012)


Três atabaques solitários
uma caixa preta,
dezessete fios.
O rádio.

Três atabaques sonhadores
uma saudade estreita,
um calo nos brios.
O ódio.

Três atabaques sofredores
nenhuma mão preta
no couro, nenhum pio.
O tédio.

Três atabaques inconformes
a sensação rejeita,
um orgulho baldio.
Sacrilégio.

Três atabaques acabados,
gente que não respeita,
que nunca ouviu.
O anúncio.

Três atabaques multicores,
um menino na espreita,
curioso e arredio. 
Tibério.

Três atabaques africanos,
a qualidade insuspeita,
a alma preta do Brasil.
Berçário. 

Três atabaques despertados,
o toque de oração refeita
nas mãos de menino surgiu.
Mistério...