Ele, que há muito partiu, veio, sem aviso, talvez para me dizer...
Seus olhos claros, sua roupa velha surrada, seus joelhos feridos, o barro espalhado por seu corpo, exalavam toda a insegurança infantil. Estendia sua mão a mim, suplicava sem dizer uma palavra. Implorava para que eu a alcançasse. E aqueles olhos eram como os meus.
Não era ele. Não podia ser. Ainda novo, ainda fraco. E fazia tanto tempo...
Num delírio suado, penso que o pequeno sou eu. Ou que eu era ele. Existe o tal menino? E eu, existo? Existe a vida? Passado e presente: o que os separa? É possível que se cruzem?
Dizem, de onde vim, que quando morre um menino, será jovem para sempre. E nós, que nascemos juntos? Ele que já foi, está fadado à juventude? Eu, que cá estou, morrerei aos poucos?
Estou no velho cemitério Père-Lachaise. E cavo a terra como louco. Não consigo ver as iniciais na lápide consumida pelo tempo. Há um caixão que não consigo abrir. Não posso encará-lo. Enraiveço.
Sinto que estou morrendo. Sou digerido aos poucos. Não tive a indulgência do tempo. Mas meus músculos ainda são rígidos e minha pele lisa. Será loucura?
Eis, que depois de muito tempo, algo pulsa de dentro de mim, embrulhando- me o estômago. É uma força avassaladora. Esta salta através de meus olhos através de salgadas lágrimas. Choro com toda a insegurança que cabia em mim e eu não sabia. Choro como uma criança. Os joelhos latejam sob a terra que os reveste.
Encaro aquele caixão em meio à insânia e vertigem da catarse. Consigo enxergar. Ele está lá. Não pisco. Ele sou eu. Ele era eu. E eu o matei. E estou morrendo.
Arrombo o caixão com fúria.
Pego aquele menino inseguro nos braços. O levo pra casa.
Juro que não mais o deixarei se afastar de mim...
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