terça-feira, agosto 02, 2011

Parto de Orly (01/02/2011)

Qual o preço de um sonho? 

Quantas vezes é preciso perder o chão para realizá-lo? 

Antes mesmo de o avião decolar já sinto as pernas formigarem, a pressão nos 
ouvidos e o aperto no peito. 

Ouço um celular que recebe uma mensagem e penso que pode ser o meu. 
Reviro os bolsos e a memória e lembro que não o trago comigo. 

Procuro um rosto conhecido para partilhar a graça do ato falho. Terá sido meu 
espírito, sofrendo de saudades precoces? 

Vejo rostos europeus: branco-rosados, finos, desconhecidos. Mais uma vez 
tremo. 

Penso naqueles que ficaram. Imagem fresca na retina e no coração. Cada 
marca de expressão em suas faces, nas quais pude ler a imensidão do amor e 
do orgulho, do afeto e da perda (ainda que esta última tenda à efemeridade). 

Mais uma vez o celular chama. Desta vez meus olhos protestam molhados. 
Será delírio? Penso que devo ser forte. 

Cada olho marejado, cada sorriso aberto, toda palavra de apoio dita ao celular 
ou ao pé do ouvido antes desta torturante espera na sala de embarque, tudo 
isso, faz de mim antes de qualquer coisa um forte, como todo aquele que tem 
sangue sertanejo correndo nas veias.  

É sabido que não se pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. Porém, quero 
voltar a este lugar exatamente como me encontro: preservado em valores, 
crenças, afetos e gentilezas. Esta é a bagagem da qual não abro mão. 


Não. 



Não quero entregar-me a um imobilismo conservador. Quero apenas manter 
comigo tudo que aprendi com aquelas pessoas e continuar sentindo esta força 
que vem “debaixo do barro do chão” de minha terra.

Um comentário:

  1. Daniel,

    Muito interessante a sua abordagem. Também sentira o mesmo quando voltara de um sonho. O amadurecimento pessoal dessas novas impressões adquiridas é de uma força tão marcante que deixará cicatrizes para sempre. Querer voltar com o singelo interesse de aprender tudo de novo, com os mesmos preceitos morais e éticos, deixa-nos com a vontade de melhorar nossa capacidade intelectiva, porém com um olho na revolução que nosso país precisa. Devemos sair sim, para que possamos crescer, mas não devemos querer ficar eternamente, pois existem muitas pessoas aqui que precisam de pessoas como nós.

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